domingo, 27 de novembro de 2016

Livro 38 – Claraboia

“Claraboia”, de José Saramago, foi escrito pelo autor no começo de sua carreira, quando ainda não era um escritor conhecido. Uma editora não respondeu a ele sobre o original e depois disso ele ficou um longo período sem escrever. A publicação só aconteceu depois da morte de Saramago, em 2011.

Nessa obra, Saramago relata o dia a dia dos moradores de seis apartamentos de um mesmo prédio, que tem uma claraboia. Em um deles, vivem quatro mulheres: Cândida é a figura central, que vive com suas filhas Adriana e Isaura e com sua irmã Amélia. Entre elas Isaura é uma leitora voraz: “Ardiam-lhe os olhos e tinha o cérebro excitado”.

As quatro mulheres costumam ouvir música clássica juntas. Em determinado momento, ficam encantadas e descrevem uma canção como bela, palavra que valorizam e é assim descrita por Cândida:

“Há palavras que se retraem, que se recusam – porque significam demais para os nossos ouvidos cansados de palavras. É como a palavra Deus para os que crêem. É uma palavra sagrada.”

O sapateiro Silvestre e sua esposa Mariana vivem em outro apartamento. Eles dão abrigo ao estudante Abel, que também gosta de ler e carrega consigo um exemplar de “Os irmãos Karamazov”, leitura que abandona para disputar uma partida de damas com Silvestre. Os dois têm conversas interessantes sobre a vida e as escolhas que fazemos.

Abel tem impressões interessantes ao chegar e se instalar no apartamento. Sobre a mobília, ele conclui, enquanto observa as instalações: “Móveis refletem a vida dos donos, como os animais domésticos”. E sobre Mariana, pensa: “(...) tão gorda que fazia riso, tão boa que dava vontade de chorar”.

Em outro apartamento, vive Lídia, que recebe visitas freqüentes de seu amante, Paulino Morais, e eventualmente também é visitada pela mãe. Abel se sente atraído por ela, assim como outros homens que vivem no prédio e o freqüentam.

Claudinha vive com os pais, Anselmo e Rosália, em outro apartamento do prédio. Ela pede ajuda a Lídia, para que solicite ao amante que lhe consiga um trabalho.

Carmem e o marido Emílio vivem em outro apartamento, com seu filho Henrique. O casal tem problemas de relacionamento e suas brigas chegam às vias de fato em alguns momentos. “A presença do marido diminuía-lhe o prazer da manhã”.

Por fim, o casal Justina e Caetano ocupa o último apartamento do prédio. Ambos vivem uma relação complicada e ela sofre de depressão. “A noite deixava-a sempre sem forças, muito cansada, com uma estúpida vontade de chorar e de morrer”.  E quando acontece um momento de aproximação com o marido, de quem ela se mantém distante desde a morte da filha Matilde, Justina quer resistir ao desejo que sente por ele, para manter a frieza e o poder em casa: “Tinha de escolher entre o prazer e o domínio”.

A estrutura narrativa lembra outra obra, de 50 anos antes, escrita pelo brasileiro Aloísio de Azevedo, O Cortiço (post aqui). Em “Claraboia”, Saramago ainda não escrevia da forma como sua escrita ficou conhecida depois de “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “O ensaio sobre a cegueira”, com textos menos pausados e sem quebra de parágrafos.

Existem muitas adaptações de obras de José Saramago para o cinema, teatro e outras linguagens. Particularmente, gosto muito dessa animação de uma história para crianças dele, “A maior flor do mundo”, narrada pelo próprio escritor:




Também não poderia deixar de mencionar aqui o conhecido vídeo que mostra a reação de Saramago após assistir, junto ao diretor brasileiro Fernando Meirelles, ao filme “Ensaio sobre a cegueira” pela primeira vez:

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