“Claraboia”, de José Saramago, foi escrito pelo autor no
começo de sua carreira, quando ainda não era um escritor conhecido. Uma editora
não respondeu a ele sobre o original e depois disso ele ficou um longo período
sem escrever. A publicação só aconteceu depois da morte de Saramago, em 2011.
Nessa obra, Saramago relata o dia a dia dos moradores de
seis apartamentos de um mesmo prédio, que tem uma claraboia. Em um deles, vivem
quatro mulheres: Cândida é a figura central, que vive com suas filhas Adriana e
Isaura e com sua irmã Amélia. Entre elas Isaura é uma leitora voraz: “Ardiam-lhe
os olhos e tinha o cérebro excitado”.
As quatro mulheres costumam ouvir música clássica juntas. Em
determinado momento, ficam encantadas e descrevem uma canção como bela, palavra
que valorizam e é assim descrita por Cândida:
“Há palavras que se retraem, que se recusam – porque significam
demais para os nossos ouvidos cansados de palavras. É como a palavra Deus para
os que crêem. É uma palavra sagrada.”
O sapateiro Silvestre e sua esposa Mariana vivem em outro
apartamento. Eles dão abrigo ao estudante Abel, que também gosta de ler e
carrega consigo um exemplar de “Os irmãos Karamazov”, leitura que abandona para
disputar uma partida de damas com Silvestre. Os dois têm conversas
interessantes sobre a vida e as escolhas que fazemos.
Abel tem impressões interessantes ao chegar e se instalar no
apartamento. Sobre a mobília, ele conclui, enquanto observa as instalações: “Móveis
refletem a vida dos donos, como os animais domésticos”. E sobre Mariana, pensa:
“(...) tão gorda que fazia riso, tão boa que dava vontade de chorar”.
Em outro apartamento, vive Lídia, que recebe visitas freqüentes
de seu amante, Paulino Morais, e eventualmente também é visitada pela mãe. Abel
se sente atraído por ela, assim como outros homens que vivem no prédio e o freqüentam.
Claudinha vive com os pais, Anselmo e Rosália, em outro
apartamento do prédio. Ela pede ajuda a Lídia, para que solicite ao amante que
lhe consiga um trabalho.
Carmem e o marido Emílio vivem em outro apartamento, com seu
filho Henrique. O casal tem problemas de relacionamento e suas brigas chegam às
vias de fato em alguns momentos. “A presença do marido diminuía-lhe o prazer da
manhã”.
Por fim, o casal Justina e Caetano ocupa o último
apartamento do prédio. Ambos vivem uma relação complicada e ela sofre de
depressão. “A noite deixava-a sempre sem forças, muito cansada, com uma estúpida
vontade de chorar e de morrer”. E quando
acontece um momento de aproximação com o marido, de quem ela se mantém distante
desde a morte da filha Matilde, Justina quer resistir ao desejo que sente por
ele, para manter a frieza e o poder em casa: “Tinha de escolher entre o prazer
e o domínio”.
A estrutura narrativa lembra outra obra, de 50 anos antes,
escrita pelo brasileiro Aloísio de Azevedo, O Cortiço (post aqui). Em “Claraboia”,
Saramago ainda não escrevia da forma como sua escrita ficou conhecida depois de
“O evangelho segundo Jesus Cristo” e “O ensaio sobre a cegueira”, com textos
menos pausados e sem quebra de parágrafos.
Existem muitas adaptações de obras de José Saramago para o
cinema, teatro e outras linguagens. Particularmente, gosto muito dessa animação
de uma história para crianças dele, “A maior flor do mundo”, narrada pelo próprio
escritor:
Também não poderia deixar de mencionar aqui o conhecido vídeo
que mostra a reação de Saramago após assistir, junto ao diretor brasileiro
Fernando Meirelles, ao filme “Ensaio sobre a cegueira” pela primeira vez:

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