Richard Dawkins é categórico em “Deus, um delírio” (Companhia das Letras). Em um
mundo no qual admitir a descrença gera desconfiança e até acaba afastando as
pessoas, admiro sua determinação e honestidade.
Em tempos de intolerância religiosa, muitas vezes quem não
acredita em nada fica de fora de campanhas, políticas públicas e mesmo de
protestos contra esse tipo de discriminação. Levei meses
para finalmente publicar um post sobre esse livro, quase deixei de fazê-lo. Não odeio ninguém, espero não ser odiada por isso. Observei que os You Tubers que falam sobre esse livro o fazem de forma insegura também, como se fosse desrespeitoso não acreditar em Deus ou questionar sua existência.
Os argumentos de Dawkins deveriam ser lidos também por quem
acredita, não para que mudem de ideia, mas para que tenham um contraponto.
Assim como quem não acredita pode dar uma lidinha na bíblia ou no alcorão de vez
em quando, porque não dói nem tira pedaço. Eu leio até as revistas que Testemunhas de Jeová entregam periodicamente em minha casa. Uma crença (ou descrença) não
qualifica ou desqualifica ninguém para nada. Ao menos, não deveria.
O livro é extenso. Li a versão digital e quando me dei conta
já estava terminando. Muitos dizem que ele pode ser considerado a bíblia dos
ateus. Não acho que essa seja uma comparação justa, porque o livro de Dawkins é
cheio de referências históricas, embasamento científico e um trabalho muito sério
de busca por qualquer evidências da existência de um poder divino no universo. É resultado de pesquisa, trabalho, observação
atenta do mundo. E como todo cientista, ele está aberto a novas abordagens,
evidências, teorias, e preparado para mudar de ideia sem grandes traumas. A bíblia
representa o oposto, como qualquer dogma.
Tem dois aspectos que me pareceram fundamentais no livro: a
forma como as pessoas se tornam religiosas (aprendendo, desde crianças, a serem
assim, se tornando parte de uma religião comum no lugar em que nascem) e o mal
que a religião já causou e ainda causa à humanidade. Lembrei do Antônio Abujamra, que ao final das entrevistas do programa "Provocações", da TV Cultura, sempre perguntava: "O que causou mais mal ao mundo, as igrejas ou os bancos?". Acredito que foram as igrejas. Ou seja, ter religião não
deveria ser sinônimo de ser alguém justo, honesto, em quem se possa confiar:
“Não acredito que haja um ateu no mundo que demoliria Meca —
ou Chartres, a York Minster ou Notre Dame, o Shwedagon, os templos de Kyoto ou,
claro, os Budas de Bamiyan. Como disse o físico americano e prêmio Nobel Steven
Weinberg, ‘a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos
gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que
gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião’. Blaise Pascal disse algo
parecido: ‘Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo
como quando o fazem por convicção religiosa’. Meu principal objetivo aqui não
foi mostrar que não devemos tirar nossos princípios morais das Escrituras
(embora essa seja minha opinião). Meu objetivo foi demonstrar que nós (e isso
inclui as pessoas religiosas) na verdade não tiramos nossos princípios morais
das Escrituras.”
O filme do qual lembrei diversas vezes enquanto lia é “Tentação”,
de 2012, que evidencia diversos aspectos do fundamentalismo apontados por
Dawkins. Recomendo muito o livro e o filme também.
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