Acredito que a leitura de diários é a melhor forma de se
colocar no lugar de outro, em determinado contexto, época, condição. Foi assim
quando li “O diário de Anne Frank” e “Eu sou Malala”. E não poderia ser
diferente com “Quarto de despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria
de Jesus (Editora Ática). Não é uma leitura agradável e a principal razão para
isso é a fome, constantemente presente no dia a dia dela e de seus filhos.
A escrita dela é visceral, porque assim foi sua vida.
Catadora de papel e outros materiais recicláveis, ela viveu na favela do
Canindé, em São Paulo ,
que ficava próxima do estádio da Portuguesa, por onde hoje passa a Marginal
Tietê. A cada dia, acordava cedo para buscar água e precisava catar materiais
para ter dinheiro para comer e alimentar seus filhos, o que nem sempre era
possível, fazendo com que ela pensasse em suicídio.
“... Já faz tanto tempo que estou no mundo que eu estou
enjoando de viver. Tambem, com a fome que eu passo quem é que pode viver
contente?” (12 de outubro de 1956)
Apesar de todas as dificuldades, Carolina continuava lendo,
escrevendo e tentando se manter otimista e a preservação dos erros de
ortografia e gramática torna esse relato ainda mais punjente:
“Eu sou muito alegre. Todas manhãs eu canto. Sou como as
aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A
primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.” (22 de julho
de 1955)
No entanto, mesmo em momentos inspirados, frequentemente a
dureza da vida de quem nem sempre tem o que comer acaba se manifestando nas
anotações da autora:
“... Contemplava extasiada o céu cor de anil. E eu fiquei
compreendendo que eu adoro o meu Brasil. O meu olhar posou nos arvoredos que
existe no início da rua Pedro Vicente. As folhas movia-se. Pensei: elas estão
aplaudindo o meu gesto de amor a minha Pátria. (...) Toquei o carrinho e fui
buscar mais papeis. A Vera ia sorrindo. E eu pensei no Casemiro de Abreu, que
disse: ‘Ri criança. A vida é bela.’ Só se a vida era boa naquele tempo. Porque
agora a época está apropriada para dizer: ‘Chora criança. A vida é amarga.’”
(19 de maio de 1956)
Em alguns períodos, ela fica sem escrever por meses e
depois, ao retornar, explica que não teve tempo, que a situação está difícil,
que ficou doente... ao julgar pelos relatos dela, fica difícil imaginar dias
ainda mais difíceis do que aqueles que ela descreve. Mas eles existiram. Carolina tem uma consciência política e social apurada. Ela chama
a favela de quarto de despejo, que é o cômodo da casa em que se deposita o que
não é bonito, onde se esconde as tralhas. E ela se coloca nesse lugar, como
parte do povo renegado pela sociedade, enganado pelos políticos, ignorado pelas
leis:
“... Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta
enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.” (20 de maio de 1956)
“Parece que eu vim ao
mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.” (6 de julho de 1956)
“(...) passei no sapateiro para ver se os sapatos da Vera
estavam prontos, porque ela reclama quando está descalça. Estava pronto e ela
calçou o sapato e começou a sorrir. Fiquei olhando minha filha sorrir, porque
eu já não sei sorrir.” (30 de julho de 1956)
Com todas as dificuldades, Carolina guardava seus livros em um cantinho do barraco e jamais deixou de
ler e escrever seus diários. O jornalista Audálio Dantas foi quem a descobriu,
quando era repórter. Seu livro foi publicado, ela saiu da favela, mas morreu no
esquecimento, em 1977.
Seu amor pelos livros está presente no diário:
“Encontrei um rato morto. Já faz dias que eu ando atrás
dele. Armei a ratoeira. Mas quem matou ele foi uma gata preta. Ela é do senhor
Antonio Sapateiro. O gato é um sábio. Não tem amor profundo e não deixa ninguem
escravisá-lo. E quando vai embora não retorna, provando que tem opinião. Se faço
essa narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que
estava estragando os meus livros.”
“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que
sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a
nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto
é o lugar onde eu moro.”
Na edição de 2014, tem algumas curiosidades no final, como a origem do termo "favela", que eu não conhecia, e a menção a adaptações do diário para o cinema, teatro e até um samba de B. Lobo. Fica a lembrança, já que hoje é o centenário do primeiro samba da nossa história, "Pelo telefone".
Ler e escrever é o que Carolina Maria de Jesus faz para
conseguir sobreviver e continuar lutando. Em determinado momento, ela agradece
a uma professora que a incentivou a escrever um diário e despertou nela o
prazer da leitura. No filme “Escritores da liberdade”, uma história verídica
sobre uma turma de alunos do ensino médio nos Estados Unidos tem personagens
que lembram a Carolina. E uma professora que mudou a vida deles,
incentivando-os a contarem suas histórias em diários, após terem lido “O diário
de Anne Frank”. Esse filme deveria ser exibido em todas as escolas de ensino médio
e o livro da Carolina Maria de Jesus, lido por seus professores e alunos.
Para encerrar, mais um vídeo.
A filha de Carolina Maria de Jesus realizou o sonho da mãe e tornou-se professora:

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