Os contos de Mia Couto são incríveis. Já tinha lido, dele, o
romance “A confissão da leoa”. Em “Contos do nascer da Terra” (Companhia das
Letras), o autor moçambicano traz histórias rodeadas de fantasia, poesia,
bonitezas. Inevitável lembrar do poeta brasileiro Manoel de Barros, a quem Mia Couto traz um
conto em homenagem, chamado “Miudádivas, pensamentos”:
“Para Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias”.
Fica difícil selecionar contos para comentar, porque todos
eles são muito bons. Logo na introdução do livro, compreendemos porque são
contos do nascer da Terra e o autor faz uma linda homenagem ao lado feminino
dos seres:
“Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande
estrela iluminou a terra e, afinal, nós poucos aprendemos a ver. O mundo
necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com
respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua
revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol.
Carecemos do nascer da Terra.”
Descobri, com essa leitura, que os contos de Mia Couto podem
ser ótimos para ler para crianças. Personagens e cenários despertam a
curiosidade dos pequenos, como no conto “A viagem da cozinheira lagrimosa”,
que li para meu filho antes de dormir e do qual ele gostou muito.
Assim como Manoel de Barros, Mia Couto esbanja poesia ao
inventar expressões e palavras. Como “inventador”, em “A última chuva do
prisioneiro”, ou “matutinava”, em “O último voo do tucano”. Em “O fintabolista”, Mia Couto introduz o conto com uma
singela homenagem às cidades pequenas, de interior, que apesar de seu
provincianismo possuem uma cordialidade preservada em relação aos grandes
centros urbanos:
“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. Lá,
porém, há gente que me dá os bons-dias”.
É uma leitura deliciosa. Um filme que assisti recentemente, baseado em fatos reais,
conta uma história que poderia ter sido inventada por Mia Couto. É um filme inspirador, emocionante. Se passa no Quênia
e é sobre um senhor determinado a aprender a ler. No Netflix, o filme está com
outro título: “O aluno”.

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