sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Livro 34 – Contos do nascer da Terra

Os contos de Mia Couto são incríveis. Já tinha lido, dele, o romance “A confissão da leoa”. Em “Contos do nascer da Terra” (Companhia das Letras), o autor moçambicano traz histórias rodeadas de fantasia, poesia, bonitezas. Inevitável lembrar do poeta brasileiro Manoel de Barros, a quem Mia Couto traz um conto em homenagem, chamado “Miudádivas, pensamentos”:

“Para Manoel de Barros, meu ensinador de ignorâncias”.

Fica difícil selecionar contos para comentar, porque todos eles são muito bons. Logo na introdução do livro, compreendemos porque são contos do nascer da Terra e o autor faz uma linda homenagem ao lado feminino dos seres:

“Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós poucos aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra.”

Descobri, com essa leitura, que os contos de Mia Couto podem ser ótimos para ler para crianças. Personagens e cenários despertam a curiosidade dos pequenos, como no conto “A viagem da cozinheira lagrimosa”, que li para meu filho antes de dormir e do qual ele gostou muito.

Assim como Manoel de Barros, Mia Couto esbanja poesia ao inventar expressões e palavras. Como “inventador”, em “A última chuva do prisioneiro”, ou “matutinava”, em “O último voo do tucano”. Em “O fintabolista”, Mia Couto introduz o conto com uma singela homenagem às cidades pequenas, de interior, que apesar de seu provincianismo possuem uma cordialidade preservada em relação aos grandes centros urbanos:

“Ninguém pode imaginar a pequenez da minha cidadezinha. Lá, porém, há gente que me dá os bons-dias”.

É uma leitura deliciosa. Um filme que assisti recentemente, baseado em fatos reais, conta uma história que poderia ter sido inventada por Mia Couto. É um filme inspirador, emocionante. Se passa no Quênia e é sobre um senhor determinado a aprender a ler. No Netflix, o filme está com outro título: “O aluno”.

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