Conheci Frei Betto na época da faculdade, quando assinei
durante alguns anos a revista Caros Amigos. Sempre gostei de ler os artigos
dele, mesmo quando não concordava com sua opinião. Em 2015, li “A mosca azul” e
agora tive a sorte de encontrar na biblioteca do Sesc esse seu “A arte de
semear estrelas”, da Editora Rocco.
São contos e microcontos que em alguns momentos me lembraram
o Galeano, em outros o Carpinejar. Isso para não mencionar as referências
citadas pelo próprio autor, como Machado de Assis, Coelho Neto, Jorge Luis
Borges e outros. Como Guimarães Rosa, nesse trecho:
“O silêncio não é o contrário da palavra. É a matriz.
Talhada pelo silêncio, mais significado ela possui. (...) Guimarães Rosa
inaugura Grandes Sertões, Veredas com
uma palavra insólita: ‘Nonada’. Convite ao silêncio, à contemplação, à mente
centrada no vazio, à alma despida de fantasias. Não nada. Não, nada.”
Em “Entre fechaduras e rinocerontes”, o autor conta sobre um
sonho em que ele era um rinoceronte e sobre como esse tipo de fantasia povoa
seu imaginário desde a infância. É claro que com uma forcinha das artes e da
literatura:
“Gosto das esferas elegíacas. Da arte que não exprime
lamento, dos primitivistas que ignoram as formalidades acadêmicas. Sou por
eflorescências. Quase toda semana irrompem em mim vulcânicas primaveras. São
flores de fogo. Procuro fixá-las em retábulos e, em exercícios espirituais,
copiá-las em
pergaminhos. Somente flores e borboletas superam as
obras-primas da arte universal. Mas não sou dado a caçar borboletas.”
Como sua assinatura diz, o autor é Frei. No livro, há
algumas referências a Deus e à religião, com as quais não compartilho. No
entanto, além de religioso ele é um exímio escritor. Tem muita poesia na prosa
dele. Como nessa frase que poderia ser um simples tweet:
“A vida é uma viagem sem bilhete de volta. Resta o consolo
do álbum de fotos: a memória.”
O que me fez lembrar de um filme assistido recentemente sobre
Ernest Hemingway e seu relacionamento com um jornalista norte-americano. Em um
determinado momento em um bar, o autor pede ao jornalista que diga um número de
um a dez, e ele diz seis. Então o escritor escreve um microconto com seis
palavras:
“Vendo roupas de bebê nunca usadas.” (tradução minha)
O filme é baseado em fatos reais e está na Netflix, chama-se
“Ernest Papa Hemingway”, ou também conhecido como “Papa: Hemingway in Cuba”.

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