quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Livro 33 – A arte de semear estrelas

Conheci Frei Betto na época da faculdade, quando assinei durante alguns anos a revista Caros Amigos. Sempre gostei de ler os artigos dele, mesmo quando não concordava com sua opinião. Em 2015, li “A mosca azul” e agora tive a sorte de encontrar na biblioteca do Sesc esse seu “A arte de semear estrelas”, da Editora Rocco.

São contos e microcontos que em alguns momentos me lembraram o Galeano, em outros o Carpinejar. Isso para não mencionar as referências citadas pelo próprio autor, como Machado de Assis, Coelho Neto, Jorge Luis Borges e outros. Como Guimarães Rosa, nesse trecho:

“O silêncio não é o contrário da palavra. É a matriz. Talhada pelo silêncio, mais significado ela possui. (...) Guimarães Rosa inaugura Grandes Sertões, Veredas com uma palavra insólita: ‘Nonada’. Convite ao silêncio, à contemplação, à mente centrada no vazio, à alma despida de fantasias. Não nada. Não, nada.”

Em “Entre fechaduras e rinocerontes”, o autor conta sobre um sonho em que ele era um rinoceronte e sobre como esse tipo de fantasia povoa seu imaginário desde a infância. É claro que com uma forcinha das artes e da literatura:

“Gosto das esferas elegíacas. Da arte que não exprime lamento, dos primitivistas que ignoram as formalidades acadêmicas. Sou por eflorescências. Quase toda semana irrompem em mim vulcânicas primaveras. São flores de fogo. Procuro fixá-las em retábulos e, em exercícios espirituais, copiá-las em pergaminhos. Somente flores e borboletas superam as obras-primas da arte universal. Mas não sou dado a caçar borboletas.”

Como sua assinatura diz, o autor é Frei. No livro, há algumas referências a Deus e à religião, com as quais não compartilho. No entanto, além de religioso ele é um exímio escritor. Tem muita poesia na prosa dele. Como nessa frase que poderia ser um simples tweet:

“A vida é uma viagem sem bilhete de volta. Resta o consolo do álbum de fotos: a memória.”

O que me fez lembrar de um filme assistido recentemente sobre Ernest Hemingway e seu relacionamento com um jornalista norte-americano. Em um determinado momento em um bar, o autor pede ao jornalista que diga um número de um a dez, e ele diz seis. Então o escritor escreve um microconto com seis palavras:

“Vendo roupas de bebê nunca usadas.” (tradução minha)

O filme é baseado em fatos reais e está na Netflix, chama-se “Ernest Papa Hemingway”, ou também conhecido como “Papa: Hemingway in Cuba”.

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