Esse é um daqueles livros com os quais tomamos contato por acaso. Comprei ele em uma promoção, em uma loja de conveniência. Havia vários títulos disponíveis, escolhi alguns e olhei atentamente as capas, li as sinopses e orelhas enquanto tomava um suco. O livro de Christopher Hope, "Os amantes de minha mãe" (Editora Record), foi o escolhido.
Logo no começo, me agradaram algumas passagens em que outros escritores são mencionados como amigos de Kathleen, a mãe do protagonista Alexander, narrador da história. Karen Blixen é uma delas. "Sua admiração por Karen Blixen, a quem ela visitou algumas vezes quando era menina, não tinha nada a ver com o caso de amor de Blixen pelos planaltos quenianos; o motivo era mais simples: - Meu Deus, como aquela mulher sabia matar leões!"
Os diálogos entre mãe e filho são carregados dos mais variados sentimentos. Uma relação complexa, como toda relação familiar:
"- Aquela exibida! Um desses estrangeiros que vêm para cá e romantizam a África. Nascido em liberdade uma ova! Deixe-me dizer-lhe uma coisa, rapaz, nada e nem ninguém nasce livre; nenhum de nós pode alegar isso; a liberdade é algo que você tem que trabalhar para conseguir e lutar para conservar.
- Sim, mãe.
- Não diga 'Sim, mãe' para mim.
- Não, mãe."
O fascínio da mãe pela África, por viajar e conviver com diferentes culturas e biomas, faziam dela um grande desafio a ser encarado pelo filho desde criança. Mesmo após a morte.
"- Você vai cair no rio e vai ser levado por crocodilos.
Eu não fiquei nem um pouco preocupado, em sempre tive a impressão de ter caído, muito tempo antes, dentro de algo tão profundo e marrom e caudaloso quanto o Tugela, e de ter sido levado, e ainda não tinha me afogado. Mães era onde você se afogava. O Tugela era apenas um rio, e com rios eu sabia lidar."
O desfecho da história não é menos surpreendente. Ao ser obrigado a refazer passos da vida da mãe para distribuir sua herança, Alexander se vê envolvido em outras histórias e passa a conhecer a própria mãe um pouco melhor, a vê-la de outro ponto de vista. Livro excelente. Fiquei triste quando acabou.
Com a menção a Karen Blixen e sua paixão pelo Quênia, lembrei de seu livro "África minha" e da versão para o cinema, que em português chama-se "Entre dois amores", que levou 7 prêmios no Oscar de 1985.
Em 2015, me desafiei a ler 24 livros e fechei o ano com 28 obras lidas. Para 2016, o desafio a ser superado foi de 36 livros e eu li 50! Em 2017, o desafio é ler nada menos que 70 títulos. Criei este blog para publicar breves relatos sobre cada leitura realizada, sempre relacionando os livros com filmes, músicas ou outras formas de arte. Contato: nanda.jornal@yahoo.com.br
domingo, 4 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Livro 23 - O assassinato de Roger Ackroyd
Finalmente tive a oportunidade de ler um dos livros da rainha do crime Agatha Christie. Em "O assassinato de Roger Ackroyd", o detetive Hercule Poirot, personagem que está em mais de 40 livros da autora, é o protagonista.
Recém chegado à cidade em que acabou de acontecer um assassinato, ele desvenda o mistério no decorrer da história.
A cada novo capítulo, surgem outros suspeitos e novas pistas. A narrativa nos envolve, queremos saber o que o detetive está pensando. Pude perceber que o estrondoso sucesso da escritora não foi à toa. Ela escreve de um jeito envolvente, nos captura e também nos engana. Conversamos sobre essa obra no Clube de Leitura de Sarapuí e teve até marcador de página personalizado com o bigode de Poirot.
Agatha Christie tem mais de 80 livros publicados. Seus suspenses foram traduzidos em todo o mundo e deram origem a filmes, séries, programas de TV. No entanto, falta um filme sobre a vida dela. Felizmente, há previsão de dois longas sobre ela para os próximos anos, com as atrizes Alicia Vikander e Emma Stone cotadas para representarem a escritora (notícia aqui).
Em 1926, um episódio pitoresco aconteceu e costuma ser lembrado quando se fala na autora. Ela simplesmente desapareceu por 11 dias, logo após se separar do marido. Dizem até que o fato ajudou a alavancar as vendas de seus livros e pode ter contribuído para o sucesso da escritora.
Encontrei diversos episódios da série britânica "Poirot", baseada em obras de Agatha Christie, disponíveis para assistir, com legendas, nesse site. Mas meu maior achado foi o episódio "O assassinato de Roger Ackroyd". Infelizmente, não está legendado e a qualidade do vídeo também não é lá das melhores, mas como gostei da história eu assisti. A atuação do ator que representa Hercule Poirot vale o play:
Recém chegado à cidade em que acabou de acontecer um assassinato, ele desvenda o mistério no decorrer da história.
A cada novo capítulo, surgem outros suspeitos e novas pistas. A narrativa nos envolve, queremos saber o que o detetive está pensando. Pude perceber que o estrondoso sucesso da escritora não foi à toa. Ela escreve de um jeito envolvente, nos captura e também nos engana. Conversamos sobre essa obra no Clube de Leitura de Sarapuí e teve até marcador de página personalizado com o bigode de Poirot.
Agatha Christie tem mais de 80 livros publicados. Seus suspenses foram traduzidos em todo o mundo e deram origem a filmes, séries, programas de TV. No entanto, falta um filme sobre a vida dela. Felizmente, há previsão de dois longas sobre ela para os próximos anos, com as atrizes Alicia Vikander e Emma Stone cotadas para representarem a escritora (notícia aqui).
Em 1926, um episódio pitoresco aconteceu e costuma ser lembrado quando se fala na autora. Ela simplesmente desapareceu por 11 dias, logo após se separar do marido. Dizem até que o fato ajudou a alavancar as vendas de seus livros e pode ter contribuído para o sucesso da escritora.
Encontrei diversos episódios da série britânica "Poirot", baseada em obras de Agatha Christie, disponíveis para assistir, com legendas, nesse site. Mas meu maior achado foi o episódio "O assassinato de Roger Ackroyd". Infelizmente, não está legendado e a qualidade do vídeo também não é lá das melhores, mas como gostei da história eu assisti. A atuação do ator que representa Hercule Poirot vale o play:
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Livro 22 - Moça com brinco de pérola
Esse é mais um daqueles livros que eu li depois de ter visto o filme. No caso de "Moça com brinco de pérola", de Tracy Chevalier, assisti ao filme inspirado no livro em 2003, no cinema. Lembro que na ocasião fiquei deslumbrada com a fotografia do filme e intrigada com a trama que envolvia um artista e uma obra de arte, a pintura que dá título ao livro, ambos reais.
Sobre o livro, só fui ter contato com ele em 2016, motivada pela busca por autoras em função do movimento Leia Mulheres, que tem clubes de leitura por todo o país que se dedicam à leitura de escritoras brasileiras e estrangeiras, clássicas e contemporâneas.
É uma leitura que flui muito bem e tem uma riqueza de detalhes nas descrições de cada atmosfera, de cada ambiente e, principalmente, das pinturas e do trabalho do artista Johannes Vermeer. Particularmente, relembrei de muitas cenas do filme ao ler e, assim como quando assisti, novamente na leitura gostei muito das referências à câmara escura, precursora da câmera fotográfica, como ferramenta de trabalho do pintor.
A curiosidade e o fascínio que o equipamento desperta nos personagens tem algo de mágico. Como amante da linguagem fotográfica, não poderia deixar de ressaltar esse aspecto do livro, que também tem vez na versão da história adaptada para o cinema.
Fiquei com muita vontade de rever o filme, que tem Scarlet Johanson como protagonista, no papel de Griet, a empregada protestante contratada para trabalhar na casa da família católica do artista plástico Vermeer. Essa é a cena em que ela vê a câmara escura pela primeira vez e aprende a preparar as tintas:
Tive a oportunidade de visitar uma exposição que tem uma versão do quadro que deu origem ao livro e ao filme. É uma "Moça com brinco de pérola" feita com peças de Lego. Depois de assistir ao filme, ler o livro e ver um simulacro do quadro, espero ter um dia a oportunidade de estar frente a frente com o original de Vermeer, em exposição no Mauritshuis Museumn, em Haia, na Holanda.
Sobre o livro, só fui ter contato com ele em 2016, motivada pela busca por autoras em função do movimento Leia Mulheres, que tem clubes de leitura por todo o país que se dedicam à leitura de escritoras brasileiras e estrangeiras, clássicas e contemporâneas.
É uma leitura que flui muito bem e tem uma riqueza de detalhes nas descrições de cada atmosfera, de cada ambiente e, principalmente, das pinturas e do trabalho do artista Johannes Vermeer. Particularmente, relembrei de muitas cenas do filme ao ler e, assim como quando assisti, novamente na leitura gostei muito das referências à câmara escura, precursora da câmera fotográfica, como ferramenta de trabalho do pintor.
A curiosidade e o fascínio que o equipamento desperta nos personagens tem algo de mágico. Como amante da linguagem fotográfica, não poderia deixar de ressaltar esse aspecto do livro, que também tem vez na versão da história adaptada para o cinema.
Fiquei com muita vontade de rever o filme, que tem Scarlet Johanson como protagonista, no papel de Griet, a empregada protestante contratada para trabalhar na casa da família católica do artista plástico Vermeer. Essa é a cena em que ela vê a câmara escura pela primeira vez e aprende a preparar as tintas:
Tive a oportunidade de visitar uma exposição que tem uma versão do quadro que deu origem ao livro e ao filme. É uma "Moça com brinco de pérola" feita com peças de Lego. Depois de assistir ao filme, ler o livro e ver um simulacro do quadro, espero ter um dia a oportunidade de estar frente a frente com o original de Vermeer, em exposição no Mauritshuis Museumn, em Haia, na Holanda.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Livro 21 – Um útero é do tamanho de um punho
Foi navegando na internet que descobri Angélica Freitas. Mais especificamente, em uma dessas listas do tipo “As dez melhores autoras brasileiras” ou “Cinco livros sobre a condição feminina”. Gaúcha, como eu, ela traz em seus poemas algumas referências à vida no Rio Grande do Sul.
Entre risadas e algum amargor na boca, os poemas em "Um útero é do tamanho de um punho", editado pela extinta editora Cosac Naify, falam muito sobre o ser mulher, se ver mulher, se aceitar como mulher. O poema que dá título ao livro é um dos mais fortes, um grito pelos direitos das mulheres para decidir, por conta própria e sem qualquer tipo de interferência da política, da religião ou dos homens, o que fazer com o próprio corpo. Os poemas estão divididos em subtítulos: “Uma mulher limpa”; “Mulher de”; “A mulher é uma construção”; “3 poemas com auxílio do Google”; “Argentina” e “O livro rosa do coração dos trouxas”.
Os poemas escritos com auxílio do Google revelam muito sobre como o machismo ainda está presente. Para escrevê-los, a autora digitou, no buscador, alguns inícios de frases com a palavra mulher. O que se revelou foi um mar de preconceito, machismo e misoginia entre os assuntos mais pesquisados, que o preenchimento automático indica nesses casos. Por exemplo: A mulher quer (primeira opção: ser amada; segunda opção: um cara rico).
Gostei de um poema em particular, que diz muito sobre a família tradicional brasileira, aquela em que a mulher trabalha muito mais e ganha muito menos dinheiro e reconhecimento que o homem:
Mulher de valores
era bem de sagitário
e o primeiro que fazia
era dar bom dia, dia
à janela
depois acordava os filhos
e ao marido lhe dizia
deus ajuda quem madruga
seu madruga
despachava a família
e ligava o notebook
conectava-se à bolsa
de valores
e lá fazia horrores
porque tinha feito um curso
de como operar a bolsa
na fiergs
investia alguma coisa
e ganhava coisa alguma
que investia novamente
no mercado
e quando chegavam os filhos
e chegava o marido
eles comiam congelados
da sadia
às onze os despachava
e abria o notebook
pra jogar o seu mahjong
descansada
mal podia esperar
que chegasse a manhã
e reabrisse a sua bolsa
de valores
de valores
de valores
A leitura desse livro, principalmente do poema que dá título a ele, me fez lembrar de um filme que assisti recentemente, sobre uma moça que engravida do namorado sem querer e pede a ajuda da avó para conseguir fazer um aborto, mas acaba tendo que pedir ajuda à mãe para pagar pelo procedimento. É uma história que seria banal, se o acesso ao aborto não fosse tão cheio de caraminholas e tabus que não só dificultam a vida de quem opta por interromper uma gravidez, como acaba causando a morte de muitas mulheres que são obrigadas a apelar para verdadeiros açougues e muitas vezes não voltam mais.
Se é complicado assim nos Estados Unidos, país em que o aborto é legal até determinado período da gravidez, imagina se a situação ocorresse no Brasil...
Além disso, a gravidez indesejada faz com que neta e avó se tornem mais próximas, em uma história bonita de cumplicidade e carinho entre as duas. Recomendo muito esse filme e o livro da Angélica Freitas também.
Entre risadas e algum amargor na boca, os poemas em "Um útero é do tamanho de um punho", editado pela extinta editora Cosac Naify, falam muito sobre o ser mulher, se ver mulher, se aceitar como mulher. O poema que dá título ao livro é um dos mais fortes, um grito pelos direitos das mulheres para decidir, por conta própria e sem qualquer tipo de interferência da política, da religião ou dos homens, o que fazer com o próprio corpo. Os poemas estão divididos em subtítulos: “Uma mulher limpa”; “Mulher de”; “A mulher é uma construção”; “3 poemas com auxílio do Google”; “Argentina” e “O livro rosa do coração dos trouxas”.
Os poemas escritos com auxílio do Google revelam muito sobre como o machismo ainda está presente. Para escrevê-los, a autora digitou, no buscador, alguns inícios de frases com a palavra mulher. O que se revelou foi um mar de preconceito, machismo e misoginia entre os assuntos mais pesquisados, que o preenchimento automático indica nesses casos. Por exemplo: A mulher quer (primeira opção: ser amada; segunda opção: um cara rico).
Gostei de um poema em particular, que diz muito sobre a família tradicional brasileira, aquela em que a mulher trabalha muito mais e ganha muito menos dinheiro e reconhecimento que o homem:Mulher de valores
era bem de sagitário
e o primeiro que fazia
era dar bom dia, dia
à janela
depois acordava os filhos
e ao marido lhe dizia
deus ajuda quem madruga
seu madruga
despachava a família
e ligava o notebook
conectava-se à bolsa
de valores
e lá fazia horrores
porque tinha feito um curso
de como operar a bolsa
na fiergs
investia alguma coisa
e ganhava coisa alguma
que investia novamente
no mercado
e quando chegavam os filhos
e chegava o marido
eles comiam congelados
da sadia
às onze os despachava
e abria o notebook
pra jogar o seu mahjong
descansada
mal podia esperar
que chegasse a manhã
e reabrisse a sua bolsa
de valores
de valores
de valores
A leitura desse livro, principalmente do poema que dá título a ele, me fez lembrar de um filme que assisti recentemente, sobre uma moça que engravida do namorado sem querer e pede a ajuda da avó para conseguir fazer um aborto, mas acaba tendo que pedir ajuda à mãe para pagar pelo procedimento. É uma história que seria banal, se o acesso ao aborto não fosse tão cheio de caraminholas e tabus que não só dificultam a vida de quem opta por interromper uma gravidez, como acaba causando a morte de muitas mulheres que são obrigadas a apelar para verdadeiros açougues e muitas vezes não voltam mais.
Se é complicado assim nos Estados Unidos, país em que o aborto é legal até determinado período da gravidez, imagina se a situação ocorresse no Brasil...
Além disso, a gravidez indesejada faz com que neta e avó se tornem mais próximas, em uma história bonita de cumplicidade e carinho entre as duas. Recomendo muito esse filme e o livro da Angélica Freitas também.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Livro 20 - Os sofrimentos do jovem Werther
Contada através de cartas escritas pelo protagonista a um amigo, a história extrapola os sofrimentos e as angústias de Werther de forma pungente. Entre sonhos e desejos, em alguns relatos surgem pensamentos relacionados à morte, não só do próprio Werther, mas de pessoas que impedem a realização de seus planos e a concretização de um relacionamento com Carlota:
Entre as declarações de amor, manifestações de ciúme e descrições de dilemas existenciais, o autor traz algumas críticas sociais, à dedicação incondicional ao trabalho, ao que hoje chamaríamos de consumismo talvez (como no trecho da imagem ao lado).
Houve alguns suicídios atribuídos ao romance, na época de sua publicação na Alemanha. Atualmente, a "Síndrome de Werther" é como chamam a vontade de se suicidar que acomete adolescentes e jovens. Um tema delicado, ainda visto como tabu, mas sobre o qual é preciso falar. Aqui tem uma matéria interessante, de 2014 que foi publicada logo após o suicídio de duas adolescentes, uma no sul do país, outra no nordeste, após terem imagem íntimas divulgadas na internet.
Em 2009, foi lançado o primeiro longa-metragem do premiado diretor Esmir Filho (curta-metragens 'Saliva', 'Alguma Coisa Assim', 'Tapa na Pantera'), baseado no romance homônimo de Ismael Caneppele. Lembrei desse filme ao terminar de ler "Os sofrimentos do jovem Werther".
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Livro 19 - Quarto
“Minha cabeça vai explodir, com todas essas coisas novas em que tenho que acreditar.”
Que descoberta a escritora irlandesa Emma Donoghue! O livro “Quarto” inspirou o filme “O quarto de Jack”, cujo roteiro foi escrito pela própria autora. A leitura já surpreende nas primeiras páginas, talvez pelo fato de a história ser toda contada pelo menino Jack, de apenas cinco anos. A maestria da autora ao incorporar esse narrador é tanta, que dá até impressão de ouvir uma criança falando enquanto lemos.
No decorrer da narrativa, a autora fornece pistas sobre a situação em que Jack e sua mãe, Joy, se encontram. O mundo, para o menino, se resume ao cômodo em que ele vive com ela, desde que nasceu. Joy foi sequestrada aos 17 anos e teve o filho no cativeiro. Ambos não têm qualquer contato com o mundo exterior e o menino cresce acreditando que as imagens da TV só existem lá e que além das paredes do quarto está o espaço sideral. O quarto em que vivem é pequeno e não tem janelas. Uma claraboia é a única abertura para o mundo lá fora. Em sua rotina diária, existe sempre um momento em que os dois gritam alto. Para o menino, é uma brincadeira. Para sua mãe, mais uma tentativa de serem ouvidos e, quem sabe, resgatados.
O livro é surpreendente em vários aspectos. O amor dessa mãe pelo filho talvez seja o principal deles. Como uma criança é libertada de um cativeiro no qual nasceu e depois do resgate pede para voltar para lá? Emma Donoghue mostra, em “Quarto”, o quanto nosso mundo depende das pessoas ao nosso redor. Joy e Jack salvam um a vida do outro, o tempo inteiro.
Momentos de tensão expectativa também são muito presentes nessa obra. Ao passar alguns dias sem energia no quarto, a mãe elabora um plano ousado para que os dois consigam escapar. A decisão radical é tomada por temer que ela e o filho acabem morrendo de fome ou de alguma doença, caso não fossem mais visitados pelo Velho Nick, que é como eles chamam o sequestrador, o único que possui a senha que dá acesso ao cativeiro.
Como conseguir interromper a leitura? É um livro para ser devorado. Provavelmente por ter um roteiro adaptado pela própria autora, o filme “O quarto de Jack” também emociona e traz, inclusive, elementos que não constam no livro, mas vão totalmente de encontro com a história e poderiam, perfeitamente, compor a narrativa também.
Infelizmente, há histórias reais que também poderiam ser reconhecidas, tanto no livro quanto no filme. Da mesma forma, algumas impressões do menino Jack fazem muito sentido em relação à forma como vivemos hoje. “As pessoas do Lá Fora não são como nós, elas têm um milhão de coisas e tipos diferentes de cada coisa”. “Essa gente de jornal entende mal uma porção de coisas. Gente de jornal, isso parecia as pessoas da Alice, que na verdade são um baralho de cartas”. Até um clube de leitura é mencionado pelo menino! Em certa altura, ele comenta: “Elas eram o clube do livro da Vovó, mas não sei por quê, pois não estavam lendo livro nenhum”.
Emma Donoghue já publicou mais de 15 livros. O primeiro deles foi sobre a cultura lésbica britânica entre 1668 e 1801. Ela vive com seus dois filhos e a companheira, atualmente, na França. “Quarto” foi o primeiro livro dela traduzido para o português, depois do sucesso do filme, que rendeu à atriz Brie Larson o Oscar de Melhor Atriz na premiação de 2016. Obrigada, Hollywood.
(Texto postado originalmente no site do Leia Mulheres: Quarto)
Trailer do filme "O quarto de Jack":
![]() |
| Gravações de "O quarto de Jack". |
Que descoberta a escritora irlandesa Emma Donoghue! O livro “Quarto” inspirou o filme “O quarto de Jack”, cujo roteiro foi escrito pela própria autora. A leitura já surpreende nas primeiras páginas, talvez pelo fato de a história ser toda contada pelo menino Jack, de apenas cinco anos. A maestria da autora ao incorporar esse narrador é tanta, que dá até impressão de ouvir uma criança falando enquanto lemos.
No decorrer da narrativa, a autora fornece pistas sobre a situação em que Jack e sua mãe, Joy, se encontram. O mundo, para o menino, se resume ao cômodo em que ele vive com ela, desde que nasceu. Joy foi sequestrada aos 17 anos e teve o filho no cativeiro. Ambos não têm qualquer contato com o mundo exterior e o menino cresce acreditando que as imagens da TV só existem lá e que além das paredes do quarto está o espaço sideral. O quarto em que vivem é pequeno e não tem janelas. Uma claraboia é a única abertura para o mundo lá fora. Em sua rotina diária, existe sempre um momento em que os dois gritam alto. Para o menino, é uma brincadeira. Para sua mãe, mais uma tentativa de serem ouvidos e, quem sabe, resgatados.
O livro é surpreendente em vários aspectos. O amor dessa mãe pelo filho talvez seja o principal deles. Como uma criança é libertada de um cativeiro no qual nasceu e depois do resgate pede para voltar para lá? Emma Donoghue mostra, em “Quarto”, o quanto nosso mundo depende das pessoas ao nosso redor. Joy e Jack salvam um a vida do outro, o tempo inteiro.
Momentos de tensão expectativa também são muito presentes nessa obra. Ao passar alguns dias sem energia no quarto, a mãe elabora um plano ousado para que os dois consigam escapar. A decisão radical é tomada por temer que ela e o filho acabem morrendo de fome ou de alguma doença, caso não fossem mais visitados pelo Velho Nick, que é como eles chamam o sequestrador, o único que possui a senha que dá acesso ao cativeiro.
Como conseguir interromper a leitura? É um livro para ser devorado. Provavelmente por ter um roteiro adaptado pela própria autora, o filme “O quarto de Jack” também emociona e traz, inclusive, elementos que não constam no livro, mas vão totalmente de encontro com a história e poderiam, perfeitamente, compor a narrativa também.
Infelizmente, há histórias reais que também poderiam ser reconhecidas, tanto no livro quanto no filme. Da mesma forma, algumas impressões do menino Jack fazem muito sentido em relação à forma como vivemos hoje. “As pessoas do Lá Fora não são como nós, elas têm um milhão de coisas e tipos diferentes de cada coisa”. “Essa gente de jornal entende mal uma porção de coisas. Gente de jornal, isso parecia as pessoas da Alice, que na verdade são um baralho de cartas”. Até um clube de leitura é mencionado pelo menino! Em certa altura, ele comenta: “Elas eram o clube do livro da Vovó, mas não sei por quê, pois não estavam lendo livro nenhum”.
Emma Donoghue já publicou mais de 15 livros. O primeiro deles foi sobre a cultura lésbica britânica entre 1668 e 1801. Ela vive com seus dois filhos e a companheira, atualmente, na França. “Quarto” foi o primeiro livro dela traduzido para o português, depois do sucesso do filme, que rendeu à atriz Brie Larson o Oscar de Melhor Atriz na premiação de 2016. Obrigada, Hollywood.
(Texto postado originalmente no site do Leia Mulheres: Quarto)
Trailer do filme "O quarto de Jack":
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Livro 18 – Capitães da areia
Este é um daqueles livros que nos obrigam a ler quando ainda
não estamos preparados para usufruir da experiência dessa leitura. Eu li
“Capitães da areia”, de Jorge Amado, pela primeira vez, aos 12 ou 13 anos.
Lembro de até ter gostado, mas certamente não tive condições de usufruir desse
clássico naquela ocasião.
Dessa vez, a leitura trouxe mais um desafio: eu teria que mediar, pela primeira vez, um encontro de leitores, sobre esse livro. Para complicar um pouco mais, eu teria que ler e fazer minhas anotações em um período no qual precisei pegar a estrada diversas vezes. Foi por isso que a leitura desse livro se deu em três suportes diferentes: o livro físico, que precisei devolver para a biblioteca quando estava chegando à metade da história; o livro digital, que passei a ler em seguida; e o áudio-livro. Resolvi aproveitar para ouvir o livro enquanto dirigia e foi uma experiência muito interessante.
A desvantagem de ouvir o livro dirigindo é não ter como fazer anotações ou marcações. No entanto, foi uma ótima saída para conseguir chegar ao final do livro
A história dos meninos que vivem em um trapiche, em Salvador, cometendo furtos e outros delitos para sobreviver, é um exemplo de literatura voltada à crítica social. Jorge Amado transforma em protagonistas crianças abandonadas, que vivem à margem da sociedade. O livro chegou a ser queimado e proibido no Brasil, na época da Ditadura Militar. Jorge Amado, assim como outros escritores, artistas e intelectuais dos anos 30, época em que o livro foi escrito (1937), era declaradamente comunista, posição perceptível nessa e em muitas de suas obras. Saber de tudo isso enriquece a leitura.
Em 2011, foi lançado um filme inspirado no livro, dirigido por Cecília Amado. Já faz alguns anos que assisti. Lembro de ter gostado, mas me decepcionado um pouco com algumas atuações. A fotografia é linda, o que não surpreende, já que as gravações ocorreram em Salvador.
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