quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Livro 21 – Um útero é do tamanho de um punho

Foi navegando na internet que descobri Angélica Freitas. Mais especificamente, em uma dessas listas do tipo “As dez melhores autoras brasileiras” ou “Cinco livros sobre a condição feminina”.  Gaúcha, como eu, ela traz em seus poemas algumas referências à vida no Rio Grande do Sul.

Entre risadas e algum amargor na boca, os poemas em "Um útero é do tamanho de um punho", editado pela extinta editora Cosac Naify, falam muito sobre o ser mulher, se ver mulher, se aceitar como mulher. O poema que dá título ao livro é um dos mais fortes, um grito pelos direitos das mulheres para decidir, por conta própria e sem qualquer tipo de interferência da política, da religião ou dos homens,  o que fazer com o próprio corpo. Os poemas estão divididos em subtítulos:  “Uma mulher limpa”; “Mulher de”; “A mulher é uma construção”; “3 poemas com auxílio do Google”; “Argentina” e “O livro rosa do coração dos trouxas”.

Os poemas escritos com auxílio do Google revelam muito sobre como o machismo ainda está presente. Para escrevê-los, a autora digitou, no buscador, alguns inícios de frases com a palavra mulher. O que se revelou foi um mar de preconceito, machismo e misoginia entre os assuntos mais pesquisados, que o preenchimento automático indica nesses casos. Por exemplo: A mulher quer (primeira opção: ser amada; segunda opção: um cara rico).





Gostei de um poema em particular, que diz muito sobre a família tradicional brasileira, aquela em que a mulher trabalha muito mais e ganha muito menos dinheiro e reconhecimento que o homem:

Mulher de valores

era bem de sagitário
e o primeiro que fazia
era dar bom dia, dia
à janela
depois acordava os filhos
e ao marido lhe dizia
deus ajuda quem madruga
seu madruga
despachava a família
 e ligava o notebook
conectava-se à bolsa
de valores
e lá fazia horrores
porque tinha feito um curso
de como operar a bolsa
na fiergs
investia alguma coisa
e ganhava coisa alguma
que investia novamente
no mercado
e quando chegavam os filhos
e chegava o marido
eles comiam congelados
da sadia
às onze os despachava
e abria o notebook
pra jogar o seu mahjong
descansada
mal podia esperar
que chegasse a manhã
e reabrisse a sua bolsa
de valores
de valores
de valores

A leitura desse livro, principalmente do poema que dá título a ele, me fez lembrar de um filme que assisti recentemente, sobre uma moça que engravida do namorado sem querer e pede a ajuda da avó para conseguir fazer um aborto, mas acaba tendo que pedir ajuda à mãe para pagar pelo procedimento. É uma história que seria banal, se o acesso ao aborto não fosse tão cheio de caraminholas e tabus que não só dificultam a vida de quem opta por interromper uma gravidez, como acaba causando a morte de muitas mulheres que são obrigadas a apelar para verdadeiros açougues e muitas vezes não voltam mais.

Se é complicado assim nos Estados Unidos, país em que o aborto é legal até determinado período da gravidez, imagina se a situação ocorresse no Brasil...



Além disso, a gravidez indesejada faz com que neta e avó se tornem mais próximas, em uma história bonita de cumplicidade e carinho entre as duas. Recomendo muito esse filme e o livro da Angélica Freitas também.


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