sábado, 4 de junho de 2016

Livro 15 – A arte de pedir

Já faz alguns meses que li “A arte de pedir”, de Amanda Palmer (Editora Intrínseca). O livro é baseado em uma palestra da autora ao TED Talks. A motivação para o convite foi a campanha da banda dela, Dresden Dolls, em um site de crowdfunding. A arrecadação foi a maior já alcançada por um projeto musical desde o surgimento da plataforma.

A verdade é que eu até gostei de algumas passagens do livro, mas acredito que a essência das quase 300 páginas dele está, de fato, naqueles xxxx minutos da palestra. A forma como ela fala em escassez e abundância é muito interessante. Ela defende que é possível viver bem com o suficiente e concordo plenamente com essa premissa.

Alguns relatos dela despertam inevitavelmente a simpatia de quem lê. Que mulher nunca passou sufoco por estar sem absorventes? Quantas já pediram um para estranhas em banheiros públicos? Eu já. Creio que, mais do que a arte de pedir, Amanda Palmer fala sobre a necessidade de voltarmos a confiar nas pessoas. Mais do que isso, não deixar de acreditar na humanidade só porque algumas pessoas não merecem essa confiança.  É uma conta com a qual só perdemos, de acordo com ela. Acho que ela tem razão. Precisamos confiar mais, olhar mais nos olhos, permitir não só que outros nos ajudem, mas que façam parte de nossas vidas.

Gostei muito da metáfora do liquidificador, que seria a forma como juntamos todas nossas experiências, as pessoas que conhecemos, novos sabores e sensações, inspirações do dia a dia. Tudo isso, misturado, vai fazendo de nós quem somos.

Para finalizar, é claro que, como fã dos felinos que sou, não poderia deixar de mencionar o amigo de Amanda, Casey, que teve um peixinho chamado Everything (Tudo). Quando o peixe morreu, ele adotou uma gata, à qual deu o nome de Something (Alguma coisa). Bem mais realista. Uma bela metáfora para a vida e nossas expectativas em relação a ela.

Enfim, independentemente da leitura ou não do livro, recomendo muito a palestra de Amanda Palmer no TED Talks - “A arte de pedir”:

sábado, 28 de maio de 2016

Livro 14 – Os prazeres e os dias

Sempre tive vontade de ler Marcel Proust. Agora, que comecei, preciso ler tudo. Era justamente o que eu temia, e também o que eu esperava. “Os prazeres e os dias”, livro de ensaios que foi o primeiro publicado pelo autor, trata de sentimentos e da subjetividade humana de uma forma absolutamente apaixonante. Preconceitos, medos, desejos e, é claro, amores, são os protagonistas dessa obra.

A linguagem surpreende pelo sarcasmo e pela ironia, às vezes sutis, às vezes nem tanto. Por outro lado, a tristeza e a melancolia também estão muito presentes. É uma crítica muito inteligente aos costumes da sociedade burguesa francesa do século XIX.

Uma passagem, em especial, me chamou muito a atenção, nesse sentido de contestação aos costumes. Trata-se de uma descrição da rivalidade entre duas famílias tradicionais, em que o narrador se vê manipulado pelos pontos de vista de ambas, até perceber o quanto elas são semelhantes (foto).

É uma leitura extremamente agradável. Um primor que justificou, na minha opinião, por si só, a fama do autor de “Em busca do tempo perdido” – empreitada em 7 volumes que pretendo enfrentar nos próximos meses, porque fiquei com gostinho de quero mais.

Sobre a habilidade de Proust em descrever os sentimentos, não faltam exemplos nos 67 textos da obra, originalmente publicada em 1896. São dizeres que nos fazem sentir. Palavras que parecem brincar com nossos desejos e medos mais profundos. Selecionei um trecho que fala sobre autopiedade e também sobre os prazeres e como precisamos deles para viver nossos dias:

“E teve pena de sentir menos pena, e depois mesmo esta pena desapareceu. Depois se foram todas as penas, todas, não havia necessidade de mandar embora os prazeres; já tinham fugido há muito em seus calcanhares alados sem voltar a cabeça, com seus ramos de flores na mão, fugido daquela morada que não era mais bastante jovem para eles. Depois, como todos os homens, morreu.”

Depois de ler este primeiro livro de Marcel Proust, como todos os outros leitores (ou quase todos, imagino), lerei outros. Recomendo muito. O filme “A prisioneira”, de 2000, é baseado no volume 5 de “Em busca do tempo perdido”. A cena mais famosa do filme é a da conversa que os personagens têm durante o banho:

 


terça-feira, 24 de maio de 2016

Livro 13 - Spotlight – Segredos Revelados

Essa foi uma leitura difícil. Não por ser monótono ou usar uma linguagem rebuscada. Também não por ser um livro longo, repetitivo, desses que abandonamos de vez em quando. Não. Antes fosse. Foi difícil ler “Spotlight – Segredos Revelados”, da equipe de reportagem do Boston Globe, porque a investigação dos jornalistas escancara um escândalo de proporções estratosféricas. 

As vítimas eram crianças. Os cúmplices, toda uma sociedade. Modus operandi que se repetiu em outras localidades, contando com o mesmo tipo de encobrimento. Em nome de que? Da preservação de uma instituição, que é a Igreja Católica.

Eu demorei para terminar essa leitura. Demorei muito mais do que imaginava. Li outros livros enquanto interrompia a leitura desse. Não porque os outros me interessassem mais, mas porque eu simplesmente não tinha mais estômago para seguir. Então parava, dava um tempo e depois retomava.
Tive náuseas quando assisti ao filme baseado no livro (artigo aqui). Comemorei quando ele recebeu o Oscar de Melhor Filme. Foi a primeira vez que fiquei feliz com o resultado do Oscar. Também fiquei feliz com a tradução para português do livro, pela editora Vestígio.

Tenho vontade de sair gritando pelas ruas, para que todos assistam ao filme e leiam o livro. Para que se importem. Para que saibam e não permitam que esse tipo de atrocidade se repita. Assim como o promotor Thomas F. Reilly (trecho na foto). 

Não conseguia parar de pensar nas crianças enquanto lia aqueles relatos, aquelas desculpas esfarrapadas, como quando o padre pedófilo Geoghan, que deu início à investigação, afirmou que a culpa por tudo aquilo era das vítimas. Ou quando um menino disse à mãe, aos prantos, que deus não o amava mais, depois de ser violentado pelo padre amigo da família, que também abusava de seus irmãos. 

Além de tudo, como jornalista, não poderia deixar de recomendar a leitura aos colegas de profissão e estudantes da área. O filme também se presta a esse papel, mas o livro é uma aula. Descrição minuciosa de um trabalho jornalístico sério, dedicado, comprometido com os fatos. Um tipo de trabalho que cada vez menos se vê em redações pelo mundo afora.

Fonte: veja.com/afp
A náusea final, depois de ler as últimas linhas, é equivalente à causada pelo filme: os "príncipes" da igreja que contribuíram para que padres abusassem de mais e mais crianças, simplesmente transferindo todos de paróquia em paróquia, por anos, foram recompensados com promoções e outros agrados, ao invés de punidos. O exemplo mais contundente é o do cardeal Bernard Law (foto), de Boston, que teve o Vaticano como destino, a convite do Papa, ao fim das reportagens que escancararam sua cumplicidade com criminosos.

De 1982 a 2002, ele realizou diversas transferências para encobrir os abusos de padres, para evitar escândalos, permitindo que os predadores continuassem agindo da mesma forma em outras cidades. Até hoje, ele não foi convidado a depor, muito menos acusado. A partir do Vaticano, onde vive, ele ainda tem influência na nomeação de bispos nos Estados Unidos.

Confira o trailer do filme, legendado:


A publicação mereceu o Pulitzer, assim como o filme mereceu o Oscar. Que mais e mais pessoas leiam. Que mais e mais pessoas assistam. Por gentileza, leiam e assistam "Spotlight - Segredos Revelados". Muito obrigada.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Livro 12 – A casa dos budas ditosos

Sempre admirei João Ubaldo Ribeiro como cronista. Com a morte dele, em 2014, decidi que leria alguns de seus romances e comecei com o polêmico “A casa dos budas ditosos” (Série Plenos Pecados, Editora Objetiva). O livro inspirou um monólogo em que Fernanda Torres representa a personagem-narradora.

Gostei da forma como o autor se coloca na pele de uma mulher para relatar suas peripécias sexuais. De fato, durante a leitura, é fácil esquecer que se trata de um livro escrito por um homem. Por outro lado, não entendi muito bem o porquê da polêmica em torno dessa obra.

Então me propus o seguinte exercício: imaginar que se trataria, ao invés de uma mulher, de um homem contando suas aventuras, conquistas, trepadas e etc. A história não ficaria melhor ou pior, mas certamente não haveria a repercussão que aconteceu por se tratar de uma mulher. Mesmo os temas mais sensíveis, como incesto e pederastia, não chamariam tanta a atenção se o protagonista fosse um homem, porque a eles é permitido e até incentivado o comportamento de predador sexual. Para ser bem honesta, cansa.

Esse tipo de polêmica cansa e acabou interferindo negativamente na minha leitura. Talvez por esperar algo mais digno de polêmica, que justificasse a repercussão do livro e da peça... Mas fico com minha admiração pelo João Ubaldo Ribeiro e em breve lerei outros livros do autor. Gostei muito da participação dele no documentário “Janela da alma”, de 2001, de João Jardim e Walter Carvalho:

 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Livro 11 – Mulheres sem homens

Depois de ler “Mulheres sem homens”, da iraniana Shahrnush Parsipur, fiquei muito surpresa ao verificar que o primeiro rascunho do livro foi escrito no ano em que eu nasci. A edição que eu li é de 2010, da editora Martins Fontes, e traz na capa uma foto da performance “Reconstruindo Sonhos”, da artista Beth Moysés, em que mulheres vestidas de noivas realizaram bordados pretos em suas luvas brancas, simbolizando as marcas da violência, em diferentes cidades do Brasil e do exterior (no site dela tem alguns registros). Foi essa foto na capa, em primeiro lugar, que me despertou o interesse pelo livro.

A narrativa tem algo de realismo fantástico, a exemplo da mulher que vira uma árvore e precisa ser alimentada por leite humano. O que combina, de certa forma, com o absurdo das convenções sociais em relação às mulheres no Irã, na época do golpe de estado dos anos 50, período em que se passam as histórias das personagens Mahdokht, Fa’ezeh, Muness, Farrokh-laga e Zarinkolah.

Estupro, machismo e feminicídio são abordados no livro. O que chocou os leitores na ocasião da primeira publicação, no entanto, foi uma abordagem totalmente livre de outro tema: a virgindade. “Nós éramos virgens e não somos mais. O que é que isso tem de tão triste?”, pergunta uma das personagens a outra, que está em prantos, em determinado momento. Em outra passagem, anterior, as mesmas personagens discutem se o hímen é um véu ou uma abertura.

Impressionam, como alertado na orelha do livro, as similaridades entre as mulheres iranianas e as brasileiras. E mais do que isso, preocupa que muitas daquelas ideias retrógradas e machistas ainda vigorem nos dias de hoje, em consideráveis grupos sociais, tanto lá como aqui.

Como não lembrar de outras duas iranianas ilustres e fortes ao ler esse livro? Assim como Shahrnush Parsipur, a diretora do filme inspirado nesse livro, Shirin Neshat, vive exilada. Não consegui encontrar o trailer do filme, que é de 2009 e rendeu à diretora o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza.

Em uma palestra de Shirin Neshat no TED Talks, realizada em 2011, ela fala sobre o paradoxo de ser uma artista em defesa de seu país, que não pode voltar para casa, e menciona o filme baseado no livro “Mulheres sem homens” dessa forma: “Eu fiz esse filme porque eu senti que é importante ele falar aos ocidentais sobre a nossa história como país”. Ela se refere ao filme como uma história política e uma história feminina e algumas cenas do longa são projetadas enquanto ela fala. Vale a pena assistir:


Outra Shirin iraniana ilustre esteve em São Paulo em 2011. Tive o prazer de cobrir a palestra de Shirin Ebadi na Sala São Paulo, no evento Fronteiras do Pensamento (matéria aqui). Foi emocionante e inspirador, como a leitura desse livro. Leitura rápida e prazerosa, que de quebra nos lembra o quanto devemos prezar pela democracia e pela liberdade. E quanto ainda precisamos do feminismo e de mulheres corajosas como essas três iranianas, entre outras que nos enchem de orgulho e admiração.

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Livro 10 – A sexta extinção

Uma espécie de rã desaparece de uma hora para a outra e descobre-se que a causa é uma outra rã, trazida pelos humanos, que tem o corpo revestido com uma substância fatal para a primeira espécie. Morcegos começam a adoecer misteriosamente até entrarem em processo de extinção, por causa de um fungo que também só passou a existir em seu habitat por interferência humana.

Essas e outras investigações são relatadas de forma extremamente esclarecedora, mesmo que dependam de informações científicas e técnicas, pela autora de “A sexta extinção”, Elisabeth Kolbert. O livro foi publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

Mas o que seria a sexta extinção? Para a autora e muitos dos cientistas entrevistados por ela, está em curso um processo de extinção que tem como causa a interferência humana na natureza. Antes dessa, cinco outras grandes extinções aconteceram na história, entre elas a mais conhecida, que acabou com os dinossauros há 65 milhões de anos.

Entre os locais visitados pela autora está a floresta amazônica. Ela esteve no Brasil para acompanhar um trabalho de catalogação e monitoramento de reservas florestais. É assustador constatar que múltiplas extinções estão acontecendo neste momento, em nosso país, devido à separação de grandes florestas em áreas menores, o que prejudica e acaba mesmo inviabilizando a sobrevivência de inúmeras espécies.

Apesar do cenário e das previsões pouco favoráveis, o otimismo é uma característica comum aos cientistas e defensores da natureza envolvidos nessa excelente reportagem. Cada um dos entrevistados trabalha com afinco para salvar uma espécie, compreender um bioma, catalogar seres ainda desconhecidos pela comunidade científica.

O livro é recomendado por Al Gore, diretor do documentário “Uma verdade inconveniente”, de 2006. O filme também é um alerta, assim como o livro de Kolbert, a respeito das consequências da interferência humana na natureza.


Dez anos depois do filme de Al Gore, Elizabeth Kolbert vai à fundo e nos apresenta não uma, mas muitas verdades inconvenientes. E mostra, com evidências científicas irrefutáveis, que a culpa é mesmo nossa. A autora levou o prêmio Pulitzer de não-ficção em 2015 pelo livro. Merecido.

domingo, 3 de abril de 2016

Livro 9 – O Quarto Poder - Uma Outra História

Fotos: Juci Ribeiro / Van Carvalho – Ag. Fio Condutor
O livro 9 desse meu desafio de leitura não poderia ser mais apropriado para este momento em que volto ao ambiente acadêmico, estudando justamente educação, comunicação e cultura. Em “O Quarto Poder - Uma Outra História” (Editora Hedra), o jornalista Paulo Henrique Amorim nos apresenta os bastidores da mídia, principalmente dos grandes grupos de comunicação, a partir do ponto de vista de um profissional que atuou, durante muitos anos, como empregado desses conglomerados. O lançamento do livro, em setembro de 2015 (foto), coincidiu com a comemoração dos 50 anos de profissão do autor.

O uso de concessões públicas de rádio e TV como instrumentos para divulgações de cunho político e ideológico, com verdadeiros oligopólios nas mãos de políticos e coronéis, já não é novidade. O que Paulo Henrique Amorim faz de novo é descrever, com riqueza de detalhes, de que forma o que ele chama de PIG – Partido da Imprensa Golpista – vem comandando o país e definindo os rumos da política, da economia e, em suma, da vida dos brasileiros.

É óbvio que a Rede Globo e seu fundador, Roberto Marinho, estão no olho desse furacão. Como não lembrar do documentário “Além do Cidadão Kane”, de 1993? Produzido pela BBC de Londres, o filme foi proibido no Brasil e Paulo Henrique Amorim descreve, em certo momento, como empregados da Rede Globo foram orientados a obter o maior número possível  de cópias (em VHS, na época), para que fossem destruídas. 

Eu, assim como muitos outros jornalistas, tive a oportunidade de assistir a uma cópia pirata do filme na universidade, nos anos 90. Hoje ele está disponível no You Tube:



Um dos momentos mais esmiuçados pelo autor é o surgimento da televisão como meio de comunicação de massa. Me chamou a atenção a forma como ele mencionou a transferência de editorialistas do jornal O Globo para a TV, citando como pioneiros Arnaldo Jabor e Miriam Leitão que, assim como outros que vieram depois, são pagos para dizer o que seus patrões pensam, como se a opinião fosse deles.

Na capa do livro, o 4 (de 4º poder) também pode ser visto como 1. Pelos relatos presentes nele, essa seria a opção claramente mais adequada para o título. Recomendo muito a leitura. Mesmo porque essa é uma história que continuamos vivendo a cada dia, com episódios emblemáticos de manipulação cada vez mais descarada pelo chamado "PIG".

Também relacionados ao poder da mídia e ao exercício jornalístico e seus dilemas éticos e profissionais, recomendo os filmes "A montanha dos 7 abutres" (1951), "O Quarto poder"(1997 - que, embora tenha o mesmo título, não tem relação com o livro), "O informante" (1999) e o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016, "Spotlight - segredos revelados", sobre o qual escrevi isso e cujo livro inspirador será um dos próximos a ser comentado aqui.

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