Essa foi uma leitura difícil. Não por ser monótono ou usar
uma linguagem rebuscada. Também não por ser um livro longo, repetitivo, desses
que abandonamos de vez em quando. Não. Antes
fosse. Foi difícil ler “Spotlight – Segredos Revelados”, da equipe de
reportagem do Boston Globe, porque a investigação dos jornalistas escancara um
escândalo de proporções estratosféricas.
As vítimas eram crianças. Os cúmplices, toda uma sociedade. Modus operandi que se repetiu em outras localidades, contando com
o mesmo tipo de encobrimento. Em nome de que? Da preservação de uma instituição,
que é a Igreja Católica.
Eu demorei para terminar essa leitura. Demorei muito mais do
que imaginava. Li outros livros enquanto interrompia a leitura desse. Não
porque os outros me interessassem mais, mas porque eu simplesmente não tinha
mais estômago para seguir. Então parava, dava um tempo e depois retomava.
Tive náuseas quando assisti ao filme baseado no livro
(artigo aqui). Comemorei quando ele recebeu o Oscar de Melhor Filme. Foi a
primeira vez que fiquei feliz com o resultado do Oscar. Também fiquei feliz com
a tradução para português do livro, pela editora Vestígio.
Tenho vontade de sair gritando pelas ruas, para que todos
assistam ao filme e leiam o livro. Para que se importem. Para que saibam e não
permitam que esse tipo de atrocidade se repita. Assim como o promotor Thomas F. Reilly (trecho na foto).
Não conseguia parar de pensar nas crianças enquanto lia aqueles relatos, aquelas desculpas esfarrapadas, como quando o padre pedófilo Geoghan, que deu início à investigação, afirmou que a culpa por tudo aquilo era das vítimas. Ou quando um menino disse à mãe, aos prantos, que deus não o amava mais, depois de ser violentado pelo padre amigo da família, que também abusava de seus irmãos.
Além de tudo, como
jornalista, não poderia deixar de recomendar a leitura aos colegas de profissão
e estudantes da área. O filme também se presta a esse papel, mas o livro é
uma aula. Descrição minuciosa de um trabalho jornalístico sério,
dedicado, comprometido com os fatos. Um tipo de trabalho que cada vez menos se
vê em redações pelo mundo afora.
A náusea final, depois de ler as últimas linhas, é equivalente à causada pelo filme: os "príncipes" da igreja que contribuíram para que padres abusassem de mais e mais crianças, simplesmente transferindo todos de paróquia em paróquia, por anos, foram recompensados com promoções e outros agrados, ao invés de punidos. O exemplo mais contundente é o do cardeal Bernard Law (foto), de Boston, que teve o Vaticano como destino, a convite do Papa, ao fim das reportagens que escancararam sua cumplicidade com criminosos.
De 1982 a 2002, ele realizou diversas transferências para encobrir os abusos de padres, para evitar escândalos, permitindo que os predadores continuassem agindo da mesma forma em outras cidades. Até hoje, ele não foi convidado a depor, muito menos acusado. A partir do Vaticano, onde vive, ele ainda tem influência na nomeação de bispos nos Estados Unidos.
Confira o trailer do filme, legendado:
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| Fonte: veja.com/afp |
De 1982 a 2002, ele realizou diversas transferências para encobrir os abusos de padres, para evitar escândalos, permitindo que os predadores continuassem agindo da mesma forma em outras cidades. Até hoje, ele não foi convidado a depor, muito menos acusado. A partir do Vaticano, onde vive, ele ainda tem influência na nomeação de bispos nos Estados Unidos.
Confira o trailer do filme, legendado:
A publicação mereceu o Pulitzer, assim como o filme mereceu o Oscar. Que
mais e mais pessoas leiam. Que mais e mais pessoas assistam. Por gentileza, leiam e assistam "Spotlight - Segredos Revelados". Muito obrigada.



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