domingo, 13 de março de 2016

Livro 8 – A metamorfose

Como uma obra que já tem 100 anos continua tão absurdamente atual? “A metamorfose”, de Franz Kafka, é uma dessas histórias. Gregor Samsa, protagonista da obra, poderia perfeitamente ser funcionário de uma empresa vivendo em um centro urbano nos dias atuais.

O livro começa com ele acordando metamorfoseado em um inseto, que poderia ser uma barata ou um besouro, ou talvez um animal de outra espécie. A partir dessa transformação, ele deixa de servir aos propósitos destinados a ele por sua família e, em última instância, por toda a sociedade. Por não ter condições de continuar trabalhando e sustentando a família, ele acaba marginalizado dentro da própria casa.

Quando o livro foi escrito, ocorria o advento da revolução industrial, cujas relações de trabalho e poder ainda se reproduzem, em grande medida, no mundo atual. O consumismo pode ser encarado como a "cereja do bolo" desse processo. Trabalhar, trabalhar e trabalhar, para comprar, comprar e comprar. Viver quando?

Durante a leitura, foi inevitável lembrar de um clássico do cinema: “Tempos modernos”, de Charles Chaplin. Especialmente a cena da “máquina de comer”, oferecida como alternativa para o patrão, para que os empregados da fábrica não precisassem interromper o trabalho para comer.



Também foi inevitável lembrar de um respeitável teórico contemporâneo, Zygmunt Bauman, que brilhantemente aborda o momento atual no que diz respeito a relações humanas, sociais e econômicas. Em “Vida para consumo”, há uma passagem em especial que a mim lembrou a metamorfose de Gregor Samsa, no aspecto de sua inadequação ao mundo a partir do momento em que ficou impossibilitado de trabalhar:

“... a incapacidade de atingir o ajuste perfeito entre o esforço e sua recompensa (em particular a incapacidade revelada de modo sistemático e que com o tempo solapa a crença na própria supremacia) pode ser uma fonte prolífica do “complexo de inadequação”, essa grande aflição da vida líquido-moderna. Na verdade, entre as interpretações comuns do fracasso, apenas a falta de dinheiro pode hoje em dia competir com a ausência de tempo.”

Gregor Samsa, antes da metamorfose, somente trabalhava e não tinha tempo para viver. Ao deixar de trabalhar, passou a não ter dinheiro e perdeu também o seu lugar na família e na sociedade. Poderia estar acontecendo hoje, aliás, provavelmente acontece. Não é preciso se metamorfosear em um inseto para se sentir excluído, desprezado, deslocado. Em suma, sem utilidade.

Uma leitura rápida, fluida, fundamental. Na edição de bolso da L&PM Pocket (reimpressão de 2015, foto), são 103 páginas. O mesmo volume também trás outra obra do autor, "O veredito". Dele, eu já tinha lido "O processo", do qual gostei muito, há alguns anos. Sobre
Franz Kafka, li e recomendo "Kafka vai ao cinema", de Hanns Zischler (Jorge Zahar Editor, 2005).



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